Criada em 2022, como uma spin-off da Santos Lab, por Mariana Caetano e pelo sócio Gabriel Klabin, a Salva.Digital está focada em transformar a forma como o agro lida com as mudanças climáticas e o carbono. Com uma abordagem técnica, a empresa oferece ferramentas avançadas para mapear impactos climáticos, gerar diagnósticos precisos e produzir produtos de adaptação e mitigação ao agro de forma efetiva otimizando os ganhos da agricultura brasileira.
O início da jornada da climate tech
Mariana, formada em Comércio Exterior e Letras, começou sua carreira na indústria de defensivos Syngenta, depois atuou em posições de liderança na Guima Café, empresa da família Pentagna Guimarães e trabalhou em um dos principais fundos de venture capital com tese no agro, a KPTL.
Gabriel Klabin foi responsável por projetar na Santos Lab os primeiros drones fabricados no Brasil, utilizados pela Marinha e pela Aeronáutica em operações de defesa nacional. Atualmente, o Gabriel preside o Conselho da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável – FBDS.
Na propriedade da Guima Café, Mariana se deparou com um problema recorrente: apesar da alta tecnologia empregada, as safras não correspondiam às expectativas. Essa frustração a levou a questionar modelos produtivos tradicionais e a buscar alternativas mais resilientes. A solução veio com a adoção de variedades mais adaptadas e técnicas de agricultura regenerativa que adequassem os cafezais a um cenário de clima mais extremo, tornando a Guima uma referência no setor – inclusive com certificações como a Regenagri e parcerias com gigantes como a Nespresso.
Tendo essa experiência, quando entrou no mundo do venture capital para o agro, após um ano e meio, ela sentiu vontade de “criar um negócio que estimulasse o produtor a fazer uma transição para a agricultura de baixo carbono, com incentivos que fossem além do óbvio”, disse Mariana Caetano para o AgFeed.
Durante anos contratou pesquisadores na Santos Lab para estudar a otimização da produtividade. Apesar do vasto conhecimento gerado, ainda faltava uma solução tangível.
Em novembro de 2022, Mariana e Gabriel fundaram a Salva.Digital, com a missão de converter essa inteligência em soluções práticas, ajudando propriedades rurais a se adaptarem às mudanças climáticas e a acessarem as oportunidades do mercado de carbono.
Inteligência de dados para identificar oportunidades de remoção de carbono
O maior desafio identificado no mercado foi a complexidade da regularização ambiental dentro do Código Florestal, agravada pela falta de informações confiáveis para a gestão de riscos climáticos.
Muitos produtores enfrentam dificuldades para compreender e cumprir exigências ambientais, além de perderem oportunidades valiosas em mercados sustentáveis. A plataforma da Salva.Digital resolve esse problema ao cruzar dados autodeclarados com bases públicas, automatizando a detecção de pendências e facilitando a tomada de decisões.
Com isso, eles oferecem ferramentas para a gestão de soluções baseadas na natureza, incluindo monitoramento de emissões e remoções de carbono, planejamento de restauração de áreas degradadas e métricas estratégicas que viabilizam a participação em programas como o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), potencializando ganhos financeiros e ambientais para o produtor.
A Salva.Digital
A Salva atua nos modelos B2B, B2B2F e B2G, fornecendo soluções para empresas, produtores rurais e instituições governamentais. O modelo de negócio da agtech é um SaaS que oferece ferramentas para calcular inventários de emissões de gases de efeito estufa (GEE), realizar análises de risco ambiental, simular cenários de impacto climático nos negócios e avaliar o custo de oportunidade de terras no território brasileiro.
Essas soluções são oferecidas no modelo “Sustainability as a Service”, atendendo empresas de diversos portes que buscam integrar práticas sustentáveis em suas operações. A agtech estrutura suas soluções em três principais frentes para apoiar produtores e empresas na adaptação às mudanças climáticas e na gestão do carbono.
Clima e adaptação: oferece mensuração dos impactos de eventos climáticos extremos e modelagem de cenários futuros, como no caso da SLC Agrícola, por exemplo, em que analisaram os efeitos do clima para os próximos 100 anos. A solução permite prever secas e outros riscos ambientais, auxiliando tanto no planejamento estratégico de empresas quanto na formulação de políticas públicas.
Gestão de carbono: elabora inventários de emissões de gases de efeito estufa, como já realizado na Coocacer Araguari, primeira cooperativa brasileira a utilizar a metodologia GHG Protocol. Além disso, a Salva orienta ações para reduzir emissões e alcançar a neutralidade de carbono, como demonstrado no trabalho com o grupo Sierentz, em que uma propriedade no Pará se tornou carbono neutro na produção de soja.
Regularização socioambiental: automatiza a análise do Cadastro Ambiental Rural (CAR), antecipando as ações necessárias para a regularização fundiária e facilitando o acesso a crédito sustentável. A solução também identifica propriedades elegíveis para programas de carbono, cruzando dados públicos e privados para gerar laudos socioambientais certificados, garantindo mais credibilidade para investidores e instituições financeiras.
Diferente de consultorias tradicionais, a Salva.Digital aposta na automação e na inteligência de dados para transformar compromissos ambientais em métricas concretas, permitindo que empresas avancem na transição para uma agricultura de baixo carbono com transparência e embasamento técnico.
Jornada de crescimento e estruturação da plataforma
A empresa operou majoritariamente em regime de bootstrap, ou seja, sem grandes investimentos externos, gerenciando seu crescimento e financiamento com os recursos próprios e gerados pela própria operação. No final do ano de 2024, recebeu um investimento-anjo, que é um aporte financeiro feito por investidores experientes, para apoiar o desenvolvimento de startups em estágio inicial.
Embora tenha optado por essa estratégia de crescimento mais controlado e autossustentado do bootstrap, a empresa está aberta a novas rodadas de captação, visando acelerar o crescimento e expandir suas soluções, mas mantendo o foco principal na geração de caixa.
A Salva se inspira em referências internacionais como a Agreena. No Brasil, além de oferecerem soluções voltadas à agricultura sustentável, agregam uma camada de compliance ao Código Florestal, diferenciando-se no mercado nacional.
O foco da startup é continuar crescendo e aprimorando sua plataforma, reduzindo a necessidade de inserção manual de dados e expandindo funcionalidades para a gestão de inventários de carbono. Além disso, buscam e estão abertos a parcerias estratégicas para ampliar o impacto no agronegócio e no meio ambiente.
Marcos estratégicos da Salva.Digital
- Início com serviços consultivos baseados em tecnologia
A Salva iniciou sua jornada oferecendo serviços consultivos, utilizando uma base tecnológica para assessorar os clientes.
- Lançamento da plataforma automatizada (julho de 2024)
A introdução da plataforma automatizada permitiu à empresa escalar suas operações e atender um número maior de clientes com maior eficiência.
- Lançamento de marketplace para compra de relatórios (fevereiro de 2025)
A Salva expandirá suas operações ao oferecer relatórios especializados por meio de um marketplace, tornando-os acessíveis para uma gama mais ampla de profissionais, como corretores imobiliários, advogados e produtores rurais, além de grandes empresas quanto consultas individuais.
O agro de baixo carbono veio para ficar
A agricultura é uma das soluções mais rápidas e viáveis para a remoção de carbono da atmosfera. A Salva acelera a remoção de carbono em escala, identifica oportunidades estratégicas e apoia a gestão de risco ambiental em cadeias de fornecedores, promovendo uma agricultura mais sustentável e resiliente.
O compromisso da startup é com a segurança alimentar, a preservação de recursos hídricos e a biodiversidade. Com o cumprimento do Código Florestal e o uso de práticas de agricultura regenerativa é possível fortalecer a resiliência do setor agronegócio frente às mudanças climáticas.
Empresas que antecipam essa tendência e incorporam ferramentas de monitoramento e mitigação de carbono não só reduzem riscos regulatórios, mas também ganham competitividade e acesso a novos mercados. A demanda crescente por soluções como as da Salva.Digital evidencia que o mercado está amadurecendo e que a transição para um agro de baixo carbono é um caminho sem volta.