COP30: o agro brasileiro é desafio ou solução para a crise climática? COP30: o agro brasileiro é desafio ou solução para a crise climática?

COP30: o agro brasileiro é desafio ou solução para a crise climática?

8 minutos para ler

Em novembro de 2025, Belém sediará a COP30, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. Trata-se de uma oportunidade histórica, não apenas por ocorrer na Amazônia, mas porque coloca o Brasil sob os holofotes de um mundo que exige compromissos mais ambiciosos e soluções reais. Nesse cenário, o agronegócio brasileiro aparece como um dos pontos mais sensíveis e, ao mesmo tempo, mais estratégicos. 

Isso porque o agronegócio é apontado como um dos setores mais impactantes nas emissões de gases de efeito estufa, mas também desponta como um protagonista potencial da transição para uma agricultura regenerativa, de baixo carbono e com impacto positivo. 

O paradoxo agroambiental brasileiro

O Brasil abriga o segundo maior rebanho bovino do mundo, com cerca de 234 milhões de cabeças em 2024, sendo líder global em rebanho comercial e maior exportador de carne bovina (Compre Rural). Além disso, o Brasil é líder mundial na exportação de commodities agrícolas importantes, destacando-se como maior exportador mundial de soja (56% das exportações globais) e milho (31%) e se consolidou como um dos maiores players globais no agronegócio (CNN). 

A pecuária e o agronegócio são reconhecidos como importantes geradores de gases de efeito estufa (GEE). Estudos indicam que a produção de alimentos responde por cerca de 74% das emissões totais do Brasil, com a cadeia da carne sendo uma das principais fontes. A fermentação entérica na pecuária representa aproximadamente 79,4% das emissões do setor agropecuário, correspondendo a 477 milhões de toneladas de CO2 equivalente (Observatório do Clima). 

Ao mesmo tempo, o Brasil possui a maior parte da Amazônia Legal, que corresponde a 59% do território brasileiro, e possui uma das maiores reservas de biodiversidade do planeta, o que o coloca entre os países com maior potencial de sequestro de carbono via natureza.  

Junto a isso, a agricultura é uma das poucas cadeias produtivas capazes de sequestrar carbono da atmosfera. Práticas de agricultura regenerativa como plantio direto, rotação de culturas e sistemas integrados lavoura-pecuária-floresta (ILPF) aumentam a incorporação de matéria orgânica no solo, transformando-o em um reservatório de carbono. 

O setor pode gerar créditos de carbono ao adotar técnicas que reduzem emissões e aumentam o sequestro de carbono, como a recuperação de áreas degradadas, o uso de biodigestores para tratamento de resíduos e o plantio de florestas comerciais. 

Esse duplo papel cria um paradoxo: o país é, simultaneamente, parte do problema e da solução. Enquanto a expansão agropecuária ainda está relacionada ao desmatamento ilegal, por outro lado surgem práticas como integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), agricultura de baixo carbono e bioinsumos, que mostram que outra agricultura é possível — e já está em curso. 

Oportunidades para o agro na COP30  

A Conferência das Partes da ONU sobre Mudança Climática (COP) é, historicamente, o principal palco internacional para negociações climáticas multilaterais. A COP30, que será realizada em novembro de 2025, em Belém (PA), carrega uma simbologia poderosa: pela primeira vez, uma COP ocorrerá na Amazônia, colocando a floresta tropical mais importante do mundo e o Brasil no centro das discussões. Esse fato, por si só, já eleva as expectativas sobre o tipo de protagonismo que o país poderá exercer.  

No campo agrícola, a COP30 abre espaço para: 

  • Reposicionar o agro brasileiro como vetor de soluções climáticas, não apenas como setor emissor; 
  • Consolidar iniciativas de agricultura regenerativa, carbono neutro e bioeconomia florestal; 
  • Expandir mercados de crédito de carbono, com foco em práticas agropecuárias sustentáveis e reflorestamento; 
  • Promover a inclusão de pequenos e médios produtores nos benefícios da transição verde; 
  • Atrair novos investimentos públicos e privados, alinhados à taxonomia sustentável. 

O que está sendo feito para a COP30  

Durante eventos preparatórios, como o Fórum Norte e Nordeste da Indústria e do Agro, o Banco do Nordeste (BNB) anunciou um volume recorde de R$ 7,8 bilhões em crédito verde, com foco em projetos agrícolas sustentáveis, energia solar, tecnologias de uso eficiente da água e modelos de produção integrados. 

Paralelamente, o governo federal trabalha para fortalecer programas como o Plano ABC+, que fomenta práticas sustentáveis com metas de redução de emissões até 2030 e uso racional do solo, da água e dos insumos. O agronegócio brasileiro está elaborando um posicionamento oficial para a COP30, liderado pela ABAG em parceria com entidades como CEAL, GPS, IICA e IPA. A proposta busca reforçar o agro como solução para os desafios climáticos e destacar o protagonismo do Brasil na produção sustentável. O documento é fruto das discussões do Fórum “Rumo à COP30”, realizado em abril de 2025. 

Startups também ganham espaço nesse contexto. Com foco em rastreabilidade, dados climáticos e cadeias curtas, muitas agtechs vêm desenvolvendo soluções com alto impacto ambiental positivo e aderência à agenda ESG, fomentando o cumprimento brasileiro das metas climáticas assumidas no Acordo de Paris e contribuindo para uma transição mais sustentável e tecnológica do setor agropecuário. 

Oportunidade no mercado de carbono 

Outro ponto crucial diz respeito ao mercado voluntário e regulado de carbono. A expectativa é que a COP30 avance na implementação do Artigo 6 do Acordo de Paris, que trata dos mecanismos de compensação internacional de emissões. Esse artigo estabelece as bases para a criação de um sistema global de créditos de carbono, permitindo que países e empresas compensem emissões em excesso investindo em projetos certificados de redução ou sequestro de carbono. Para o Brasil, isso representa uma oportunidade concreta de transformar ativos ambientais em valor de mercado. 

Embora o agronegócio ainda esteja fora do atual mercado regulado de carbono no Brasil, instituído em dezembro de 2024 com o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE), o setor já se mobiliza para participar ativamente da futura estrutura nacional de comércio de emissões.  

Produtores, cooperativas e entidades como a CNA têm atuado para garantir que metodologias e critérios levem em conta as especificidades do campo, defendendo, por exemplo, o reconhecimento do sequestro de carbono no solo e de práticas regenerativas. A intenção é transformar ações sustentáveis já adotadas — como ILPF, recuperação de pastagens e conservação de vegetação nativa — em ativos ambientais certificados, gerando uma nova fonte de receita e valorizando o papel do agro como parte da solução climática (CNA).  

Com sua vasta capacidade de sequestrar carbono por meio de florestas nativas, pastagens bem manejadas e sistemas agroflorestais, o país pode ocupar um papel estratégico nesste novo arranjo global. A diversidade de biomas, o avanço técnico no setor agropecuário e a presença de áreas degradadas passíveis de restauração criam um cenário propício para geração de créditos robustos e de alta integridade. 

Startups, cooperativas e grandes grupos agrícolas já se posicionam nesse sentido, investindo em tecnologias como monitoramento via satélite, sensores em solo, blockchain para rastreabilidade e digitalização de toda a cadeia produtiva. Esse movimento não apenas cria uma nova frente de receita — com a venda de créditos de carbono — mas também reforça a competitividade internacional do agronegócio brasileiro diante de exigências regulatórias mais rígidas, como a nova Regulamentação Antidesmatamento da União Europeia (EUDR), que condiciona a entrada de produtos à comprovação de origem livre de desmatamento. 

A regulamentação do mercado de carbono, quando alinhada ao potencial do setor agrícola, tende a reforçar a confiança de investidores e compradores internacionais, ao estabelecer critérios claros de adicionalidade, permanência e verificação. Com a COP30 projetando o Brasil no centro das atenções globais, o país tem a oportunidade de demonstrar sua capacidade técnica e institucional para liderar uma agenda de compensação climática baseada também na produção sustentável. 

O futuro do agro é verde e passa por Belém  

A COP30 será mais do que um evento diplomático: será um espelho para o mundo ver quem somos e o que queremos ser. O agronegócio brasileiro, tantas vezes associado a pressões ambientais, tem nas mãos a chance de se reinventar como protagonista da transição climática — não apenas mitigando impactos, mas criando soluções regenerativas em escala. 

Entre a monocultura extensiva e os sistemas integrados, entre o desmatamento e a restauração, o agro nacional caminha numa encruzilhada histórica. A escolha é urgente e estratégica: ou seguimos sendo vistos como parte do problema, ou assumimos de vez o papel de solução. 

A Amazônia será palco, mas o agro será enredo. A questão é: o Brasil está pronto para ser referência global em agricultura regenerativa e economia de baixo carbono? 

Posts relacionados

Deixe um comentário