Acompanhe neste artigo um panorama sobre as áreas de atuação das foodtechs e sua relação com hábitos alimentares e o desejo de uma alimentação consciente por parte da população.
O mercado de substitutos de carne convencional por opções plant-based alcançou R$ 821 milhões em vendas no varejo brasileiro em 2022, registrando um notável crescimento de 42% em comparação com 2021. Esses dados foram divulgados pelo The Good Food Institute por meio da plataforma Passport da Euromonitor.
A soja, tradicionalmente dominante nas proteínas plant-based, agora enfrenta a concorrência de pulses, como feijão, ervilha e lentilha, destacando a diversificação de fontes proteicas. Esta é uma das principais atividades das foodtechs: não só os alimentos plant-based, mas também a busca por alimentos mais nutritivos e menos nocivos para seres humanos e meio ambiente, sem deixar de atender a demandas dos consumidores.
Novas tendências nos hábitos alimentares
A demanda por uma alimentação saudável e ambientalmente responsável está em constante crescimento. Os cenários da modernidade e a internet influenciam muito nas mudanças comportamentais, inclusive nos hábitos alimentares, e as foodtechs chegam para concretizar e fomentar essas mudanças.
A Brasil Food Trends 2020, pesquisa realizada pela Fiesp, mostrou que o principal influenciador na escolha dos consumidores brasileiros em relação a alimentos é a conveniência e praticidade.
É um comportamento compreensível, visto que a correria do dia a dia faz com que as pessoas busquem por alternativas mais rápidas de alimentação.
Entretanto, a pandemia acelerou a conscientização sobre a segurança dos alimentos, tornando a saudabilidade e sustentabilidade influenciadores relevantes nos padrões de compra. Uma pesquisa realizada em 2020 pelo Instituto QualiBest com a consultoria especializada em food service Galunion, mostrou que 75% dos consumidores preferem comprar alimentos saborosos, frescos e que promovam imunidade e saúde. Os consumidores estão demonstrando maior interesse em produtos certificados, rastreáveis e associados a benefícios à saúde, ou seja, uma alimentação consciente.
Segundo a pesquisa da SaudaBe de 2023, a Geração Z, indivíduos nascidos 1995 e 2010, tem priorizado a saúde ao invés da estética, que perde espaço para uma preocupação genuína com o equilíbrio físico e mental. Apesar da busca ativa por uma alimentação mais saudável, a prática de exercícios físicos ainda não acompanha essa mudança. Também foi pontuado que o digital exerce forte influência nas decisões, com profissionais de saúde e influenciadores impactando escolhas de compra.
A Embrapa realizou uma publicação sobre as megatendências para o futuro, afirmando com base em diversos estudos que as principais tendências de consumo alimentício são a sustentabilidade, a saudabilidade e a segurança alimentar. Vale ressaltar que, com as recentes mudanças climáticas, as preocupações com a operação e composição dos alimentos tende a aumentar.
A crescente preocupação com o processo de produção da comida, junto com a necessidade de praticidade dos consumidores, é o que tem inspirado várias foodtechs na criação de suas soluções e, como uma via de mão dupla, as soluções que já existem são influenciadoras para a adoção de uma alimentação consciente.
Sustentabilidade na cadeia alimentar
Assim como as agtechs são o motor de sustentabilidade na cadeia agrícola, as foodtechs têm desempenhado um papel inovador e essencial na promoção da sustentabilidade e saudabilidade na cadeia alimentar. Essas empresas estão na vanguarda de mudanças que visam criar um sistema com hábitos alimentares melhores, e aqui estão alguns dos aspectos trabalhados pelas foodtechs:
Inovações para o mercado alimentício em 2024
À medida que a tecnologia se expande no mercado de alimentos, a maneira como as pessoas escolhem e compram seus produtos vai tomando novos padrões. Entre as principais tendências nos hábitos existem algumas inovações que podem ser crescentes no cenário de 2024.
- Alimentos para a saúde: produção de alimentos que vão além de saciar a fome; seu intuito é nutrir e melhorar o metabolismo, aumentando a saúde do consumidor.
- Marketplace de alimentos de qualidade: mercados online de alimentos de qualidade, geralmente vindos de pequenos produtores, que trazem confiabilidade na produção limpa e acessibilidade para o consumidor.
- Based-plant: desenvolvimento de todos os tipos de alimentos proteicos usando plantas, microrganismos e até mesmo proteínas cultivadas em laboratório, substituindo os de origem animal e até mesmo se sobressaindo na quantidade de proteínas que eles possuem.
- Superfood, estimulantes e esportivos: alimentos que estimulam a capacidade cognitiva, como cafeína, e alimentos que atendam às demandas de desempenho e crescimento dos praticantes de esportes e entusiastas fitness.
- IA na alimentação: aplicativos que personalizam a dieta das pessoas e se adaptam às preferências e estados de ânimo dos consumidores.
O papel das marcas na conscientização do consumo de alimentos
Responsáveis pelo grande estímulo ao consumo, as marcas também possuem forte potencial para influenciar seus consumidores. Mudar o processo de produção para algo sustentável, apesar de extremamente importante e necessário, não é mais suficiente.
No contexto atual, em que a conscientização sobre sustentabilidade e saúde ganha cada vez mais relevância, elas desempenham um papel crucial na mudança de hábitos alimentares no Brasil, especialmente entre gerações Z (18 a 25 anos) e Millenials (32 a 40 anos).
A Pesquisa Vida Saudável e Sustentável 2023 realizada pelo Instituto Akatu e GlobeScan, que teve como foco essas gerações, apontou que 90% dos brasileiros querem ver mais informações sobre o que as empresas fazem para tornar seus produtos melhores para o meio ambiente. Além disso, o nível de “total confiança” nas informações que as marcas passam sobre a sustentabilidade de seus produtos é baixo.
Apesar de “preço” ser apontado como maior obstáculo para a mudança de hábitos, a comunicação se destaca como motor-chave para essa transição. Existe a necessidade de uma maior transparência das marcas sobre seus processos e seus impactos positivos socioambientais.
A principal estratégia para isso é a comunicação direta. Seus canais oficiais e seus rótulos são as fontes de informações que os consumidores mais confiam, e é lá que as marcas devem trabalhar a importância do consumo responsável e suas iniciativas a respeito, de maneira que impacte o consumidor.
A educação da população também é um componente-chave. Na pesquisa foi pontuado que mesmo com a maioria respondente dizendo desejar hábitos mais saudáveis e responsáveis, 28% não sabia como alcançar isso. As marcas têm a oportunidade de serem agentes educativos ao abordar alternativas e comportamentos acessíveis, podendo tomar a posição de um influenciador positivo.
Essas mudanças impactam beneficamente não apenas a imagem da marca, mas também os hábitos da população e, consequentemente, o meio ambiente e a saúde do consumidor. Essa é uma forma de ir além na senda do progresso da responsabilidade socioambiental.
Cases de sucesso que unem tech e alimentação consciente
A Liv Up, que está entre as maiores foodtechs brasileiras, é uma empresa de comidas naturais para viagem. Marketplace de marmitas saudáveis congeladas, realiza as vendas pelo aplicativo com um cardápio personalizável e ingredientes orgânicos vindos de produtores familiares.
O objetivo da marca é desmistificar a ideia de que comida congelada não é nutritiva e mostrar que o saudável também pode ser prático. A startup já atua em cinquenta cidades e desde sua fundação vem aumentando seu portfólio para mercearias, padarias e açougues, trabalhando para virar um supermercado digital.
A foodtech já captou US$ 88,5 milhões de Series A até Series D. Sua última captação foi em 2022, em uma Series D de R$ 26 milhões, liderada pela Minerva Foods, conforme informações do Crunchbase. Esse número a coloca como terceira foodtech mais investida no Brasil, ficando atrás apenas do Ifood e da Daki.
Outra gigante no setor de foodtechs brasileiras, que também é focada em alimentação consciente, é a Fazenda Futuro, startup de carne vegetal. Ela possui em seu portfólio hambúrguer, almôndegas, frango em pedaços, carne moída, atum e linguiça de pernil, todos feitos à base de plantas e sem transgênicos, colesterol, glúten e gorduras trans.
O público que deseja alcançar não é apenas formado por vegetarianos e veganos; a marca quer atingir os consumidores de carne comum. Vale ressaltar que em 2022 a cantora Anitta entrou como sócia da startup, dando maior visibilidade à marca.
A startup já captou um total de US$ 83,8 milhões em uma Series A, uma B e uma C. A última captação foi em 2021 no valor de R$ 300 milhões, em uma Series C que teve como investidores líderes BTG Pactual e Rage Capital. Essa rodada avaliou o negócio em R$ 2,2 bilhões. Os dados são do Crunchbase, que a colocam como quarta foodtech mais investida no Brasil.
Como uma junção das duas, temos a Beleaf, marketplace de marmita congelada 100% vegetal. Citada na matéria da Forbes como uma das 6 foodtehs que estão revolucionando o mercado de refeições saudáveis, a startup trabalha para fornecer praticidade nas refeições, variedade no cardápio balanceado, saúde com alimentos totalmente plant-based e sustentabilidade em suas embalagens. Atualmente já atua em São Paulo, Campinas, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Curitiba.
De acordo com o Crunchbase, a Beleaf recebeu dois financiamentos, um Angel Round e, o último, um Venture Round de R$ 1,1 milhões, tendo o GR8 Ventures como investidor líder. Totalizando um valor de US$ 585 mil captados atualmente.
A startup possui parceria com a Fazenda Futuro, e alguns pratos do cardápio são feitos com carnes da Fazenda e possuem na composição de seu nome a marca Futuro, como “Lasanha Bolonhesa do Futuro”.
Panorama brasileiro
Embora a busca por uma alimentação consciente com produtos ecologicamente positivos esteja em ascensão, a transição cultural requer tempo e educação. A resistência e os estereótipos de que comidas alternativas são ruins e insossas ainda existe. O alto custo de produção faz com que os preços de venda no Brasil não sejam tão acessíveis para todos e limita as opções de escolha de parte da população. Também está presente a necessidade de educar grande parte dos consumidores, visto que a maioria não possui a consciência dos impactos do consumo.
Sobretudo, é crucial compreender que esse mercado está ganhando crescente importância e que representa uma grande oportunidade de inovação e rentabilidade nos hábitos alimentares. De acordo com o Foodtech Report 2022, no Brasil, 36,4% das foodtechs que oferecem produtos são startups de hortaliças, proteínas e laticínios vegetais.
Além disso, também foi destacado que metade das ofertas são produtos naturais como snacks, refeições frescas e/ou congeladas, cafés, molhos, ovos, comida infantil ou para pet. Isso mostra que há uma diversidade de produtos oferecidos por essas startups refletindo a abrangência das inovações no setor de alimentação, atendendo a diferentes necessidades e preferências dos consumidores, além de reforçar também a capacidade das foodtech de suprirem as diferentes funções que os alimentos cumprem na rotina dos consumidores, atendendo também aos filhos e pets.
Conclusão
Podemos ver que o cenário alimentar brasileiro está passando por uma transformação significativa facilitada pelas foodtechs, que não apenas responde à crescente demanda por opções mais saudáveis, mas também lidera o caminho em direção a uma alimentação consciente e sustentável. O crescimento do mercado de substitutos de carne convencionais reflete não apenas uma mudança nos hábitos de consumo e uma abertura a novas opções, mas também uma conscientização cada vez maior sobre os impactos da alimentação na saúde e no meio ambiente.
A influência das foodtechs não se limita apenas à diversificação de alimentos saudáveis, mas abrange toda a cadeia alimentar, desde métodos inovadores de produção até práticas operacionais e o acesso rápido a alimentos. O poder de tornar prática a realização de refeições é por si só um modelo rentável e fazer com que essas refeições sejam saudáveis e orgânicas é ir além, atingindo um público mais amplo e influenciando positivamente os hábitos alimentares. Isso torna as foodtechs uma promessa para o futuro.


