Safra recorde, armazém insuficiente: os desafios da armazenagem no Brasil Safra recorde, armazém insuficiente: os desafios da armazenagem no Brasil

Safra recorde, armazém insuficiente: os desafios da armazenagem no Brasil

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A produção agrícola nacional, especialmente de grãos, está aquecida, mas enfrenta problemas de armazenagem adequada.

Quando se fala de grãos, não dá para não pensar no Brasil. O país lidera a produção e exportação mundial de soja, possuindo uma participação de mercado de 55%, além de estar bem colocado como o terceiro maior produtor e exportador de milho.

O Brasil se destaca a partir de suas vantagens competitivas: melhores condições ambientais devido à abundância de recursos e clima, o crescimento da produção graças às grandes reservas de áreas produtivas existentes e aos custos mais atrativos do que em outros lugares do mundo.

Grãos têm alavancado o crescimento do agronegócio brasileiro

Com o passar dos anos, o agronegócio brasileiro tem consolidado sua participação significativa no PIB nacional. Em 2024, o setor representou 24,8% do Produto Interno Bruto, segundo cálculo do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

Grande parte dessa movimentação econômica vem das lavouras de grãos, que nos últimos anos impulsionaram o faturamento do setor – superando a pecuária – devido ao ganho de representatividade no mercado de milho e soja. Isso foi potencializado pelo aumento da produtividade no segmento. De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), entre 1980 e 2021, a produção de grãos no Brasil cresceu quase 400%, impulsionada por avanços tecnológicos, desenvolvimento de novas sementes, modernização das práticas agrícolas e políticas públicas de incentivo.

Com o crescimento da população mundial, a demanda pela produção brasileira de grãos tem aumentado. Embora o Brasil possua condições para atender essa demanda – inclusive com grandes extensões de terras agricultáveis –, ainda enfrenta um desafio crítico: a insuficiência de capacidade de armazenagem, que aumenta ano após ano.

O aumento do déficit de armazenagem nacional

No ano de 2025, é esperado que o Brasil tenha mais uma supersafra de grãos, prevista pela Conab em 322,3 milhões de toneladas. Caso esse número se concretize, essa seria a maior safra registrada no país. Apesar de parecer algo muito bom, existe um problema por trás disso: o crescente déficit de armazenagem.

A atual capacidade estática de armazenagem, segundo a última atualização do IBGE de novembro de 2024, é estimada em 222,3 milhões de toneladas – um número equivalente a aproximadamente 100 milhões de toneladas a menos que a expectativa de produção para 2025.

Com isso, confirma-se que o ganho de produtividade na produção de grãos no país não foi acompanhado de investimentos no setor de armazenagem, que cresceu nos últimos 15 anos em média 2,80% ao ano quando se observa dados semestrais apresentados pelo IBGE nas últimas atualizações sobre o setor.

Entre as regiões mais afetadas pelo déficit, o Centro-Oeste se destaca negativamente, com uma defasagem superior a 80 milhões de toneladas – mais que o dobro da capacidade estática da região. A única região que apresenta superávit de armazenagem em relação à produção é o Sudeste.

O que impulsionará o crescimento da armazenagem nos próximos anos?

Com a contínua expansão da produção de soja, milho e trigo, a demanda por armazenagem cresce proporcionalmente. Estudos e previsões de órgãos como o Ministério da Agricultura e a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) indicam um crescimento significativo na produção, com projeções que variam entre 333 e 390 milhões de toneladas até 2030, exigindo uma rede de armazenagem mais robusta e descentralizada.

Nesse cenário, muitos estão voltando os olhos para o setor como oportunidade de investimento, especialmente os próprios produtores rurais, que vêm apostando na construção de armazéns nas fazendas – o modelo conhecido como on-farm. Essa prática reduz custos logísticos e aumenta a autonomia no momento da comercialização. A tendência é que esse modelo cresça, impulsionado pela redução dos custos tecnológicos e pela oferta de linhas de crédito específicas.

Programas de incentivo como o PCA (Programa para Construção e Ampliação de Armazéns), operado pelo BNDES, têm estimulado a modernização e ampliação da infraestrutura de armazenagem, oferecendo juros subsidiados e prazos de carência atrativos para os produtores.

Além disso, novas tecnologias – como sensores de temperatura e umidade, sistemas automatizados de aeração e softwares de gestão agrícola – estão tornando os armazéns mais eficientes, seguros e com menor custo operacional. Isso permite reduzir perdas e preservar a qualidade dos grãos estocados.

Quais alternativas de crédito existem hoje para investir em armazéns?

Atualmente, o principal programa público voltado à armazenagem é o PCA, com taxas controladas e prazos longos. Na safra 2023/24, o programa contou com R$ 6,7 bilhões em orçamento, mas apenas cerca de R$ 3,5 bilhões foram contratados até o momento. Ou seja, mais de 45% dos recursos ficaram ociosos, mesmo com o gargalo de armazenagem nacional.

Além do PCA, produtores podem acessar linhas de investimento do BNDES ou recursos via cooperativas de crédito, que têm atuado com maior proximidade.

Do lado privado, surgem alternativas mais modernas:

  • CRAs lastreados em projetos de armazenagem, estruturados por plataformas de investimento ou securitizadoras.
  • Fundos estruturados ou FIDCs voltados à infraestrutura agrícola.
  • Em alguns casos, fintechs e agfintechs têm oferecido produtos de crédito mais personalizados com garantias alternativas (estoque, recebíveis, CPRs). Esperamos também que em breve o crowdfunding seja uma alternativa.

Quais os caminhos para acessar essas as linhas de financiamento da armazenagem?

No caso do PCA, o produtor deve apresentar um projeto técnico validado e protocolar a proposta em instituições financeiras credenciadas, como Banco do Brasil, Sicredi, Sicoob, entre outras.

Contudo, dados do Banco Central revelam que 76% dos recursos contratados na safra atual se concentraram em apenas três instituições, indicando que parte do sistema financeiro não tem dado prioridade ou não possui estrutura para operar essa linha.

Além disso, o próprio ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, declarou no Senado que o Banco do Brasil solicitou o remanejamento de recursos do PCA para outras linhas por falta de propostas aprovadas, apesar do déficit no país. Isso mostra que há um descompasso entre a demanda real e os modelos de financiamento disponíveis.

Nossas hipóteses, baseadas em pesquisa de campo, indicam alguns motivos para essa baixa execução:

  • Falta de conhecimento técnico-financeiro por parte dos produtores;
  • Baixo apetite das instituições financeiras, que preferem linhas de curto prazo com maior giro;
  • Projetos barrados por questões documentais ou capacidade de pagamento.

Por isso, acreditamos que o mercado de capitais pode complementar esse vácuo, com estruturas mais flexíveis, especialmente via CRAs. Pela nossa plataforma, por exemplo, estamos desenvolvendo modelos de mini CRAs com foco em pequenos e médios produtores, utilizando estrutura de fluxo futuro com garantias de estoque ou recebíveis da produção.

Transformação da armazenagem é essencial

A evolução da produção agrícola no Brasil é notável, mas traz consigo o urgente desafio de modernizar e expandir a capacidade de armazenagem para acompanhar o ritmo das safras recordes.

O déficit atual, superior a 100 milhões de toneladas, evidencia a necessidade de políticas públicas mais eficazes, maior acesso ao crédito e, principalmente, de alternativas que combinem inovação tecnológica e soluções financeiras mais inclusivas.

O protagonismo do produtor rural na construção de armazéns on-farm, aliado ao fortalecimento de instrumentos como o PCA, CRAs estruturados e plataformas de financiamento coletivo, pode redefinir a lógica da armazenagem no Brasil. Para isso, será necessário superar entraves burocráticos, ampliar a oferta de assistência técnica e fomentar a educação financeira no campo.

A transformação da armazenagem brasileira será essencial para garantir competitividade ao agro, reduzir perdas, melhorar a logística e ampliar as margens dos produtores. Mais do que um gargalo, trata-se de uma grande oportunidade para quem deseja investir no futuro do agronegócio nacional.

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