De gigante agrícola a potência em SAF: o Brasil no centro da aviação sustentável De gigante agrícola a potência em SAF: o Brasil no centro da aviação sustentável

De gigante agrícola a potência em SAF: o Brasil no centro da aviação sustentável

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De acordo com um estudo liderado pela Manchester Metropolitan University, a aviação global é responsável pela emissão de cerca de 3,5% do dióxido de carbono (CO₂) que vai para a atmosfera. Considerando a previsão de ampliação do mercado aéreo, essa taxa tende a aumentar em poucos anos, se nada for feito (UFJF). A alternativa para a sustentabilidade no setor já existe, o biocombustível SAF, que apesar de eficaz ainda precisa de incentivos para alcançar seu potencial de impacto.

O que é o SAF?

O SAF, sigla para Sustainable Aviation Fuel (combustível sustentável de aviação), é um combustível desenvolvido a partir de fontes renováveis que visa reduzir as emissões de carbono associadas à aviação.

Esse combustível inovador é produzido a partir de matérias-primas sustentáveis, como óleos vegetais, gordura animal, biomassa, resíduos orgânicos e resíduos da agricultura, óleo de cozinha usado, gorduras, cana-de-açúcar, milho etc., representando uma alternativa mais ecológica ao querosene de aviação tradicional, derivado do petróleo.

Conhecido também como biojet ou BioQAV (querosene verde), o SAF reduz as emissões de CO₂ e outras emissões nocivas, como partículas de enxofre. O setor da aviação é uma área de difícil descarbonização devido às exigências específicas para combustíveis.

Uma das principais vantagens técnicas do SAF é seu caráter “drop-in”, o que significa que ele pode ser usado diretamente nas aeronaves e na infraestrutura atual de aviação, sem a necessidade de adaptações complexas, facilitando sua adoção pela indústria e fomento da transição para uma aviação mais sustentável.

Como é realizada a produção?

O SAF pode ser utilizado puro ou misturado ao combustível de origem fóssil, conforme as especificações técnicas de segurança. Existem diferentes rotas/tecnologias de produção autorizadas no Brasil, como o hidroprocessamento de ésteres e ácidos graxos (HEFA, que transforma matérias-primas sustentáveis em combustíveis de alta qualidade para aviação.

Fonte: Empresa de Pesquisa Energética (EPE)

Diante da urgência em reduzir as emissões de carbono, muitos países e organizações globais, como a Organização da Aviação Civil Internacional (OACI), estão promovendo o uso de SAF por meio de regulamentações e incentivos, com a meta de zerar as emissões da aviação até 2050.

Uma usina sucroenergética que já produz etanol pode integrar a rota Alcohol-to-Jet (ATJ) à sua operação, aproveitando o etanol como matéria-prima para SAF. Isso requer adaptações na planta industrial e parcerias com empresas que realizem a conversão final, mas permite à usina acessar um mercado premium e sustentável.

O potencial de mercado de SAF

O mercado de Combustíveis Sustentáveis de Aviação está em rápida expansão, impulsionado pela crescente demanda por soluções que reduzam as emissões de carbono.

De acordo com a Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA), em 2023, a produção de SAF alcançou mais de 600 milhões de litros, o que representa o dobro do volume produzido em 2022.

O SAF constituiu 3% de toda a produção de combustíveis renováveis, enquanto 97% foram destinados a outros setores. As expectativas para 2024 são de que a produção triplique, totalizando 1,875 bilhão de litros, o que corresponderá a 0,53% da necessidade total de combustível para a aviação e 6% da capacidade de combustível renovável.

Embora o aumento na produção de SAF seja um desenvolvimento positivo, sua participação no mercado de combustíveis renováveis permanece limitada. O diretor geral da IATA, Willie Walsh, destacou que a aviação necessita de 25% a 30% da capacidade de produção de combustível renovável para SAF para estar no caminho certo em direção à meta de emissões líquidas de carbono zero até 2050. Ele enfatizou que políticas governamentais eficazes são cruciais para incentivar a produção de SAF e diversificar as fontes de matérias-primas locais​.

Sustentabilidade na aviação brasileira

O Brasil tem um enorme potencial para se tornar um dos principais produtores globais de combustível sustentável para aviação (SAF). Esse potencial é sustentado por fatores como a ampla disponibilidade de biomassa, experiência consolidada na produção de biocombustíveis e um ecossistema de inovação que já favorece a transição energética.

O país é líder mundial na produção de etanol e biodiesel, e essa expertise pode ser aproveitada para expandir a produção de SAF, já que muitos dos processos e tecnologias são compatíveis. A sustentabilidade na aviação brasileira está se tornando um assunto relevante no país, refletindo a crescente conscientização sobre a necessidade de reduzir as emissões de carbono e os impactos ambientais dos combustíveis fósseis.

Nesse contexto, a Conexão SAF surge como uma iniciativa, unindo esforços de agentes públicos e privados para promover o uso de Combustíveis Sustentáveis de Aviação, estabelecendo canais de divulgação, comunicação e diálogo ao longo da cadeia de produção, distribuição e consumo de SAF, de modo a incentivar novos negócios e investimentos no setor.

Com a experiência do país na produção de biocombustíveis e a disponibilidade de matérias-primas, a Conexão SAF tem o potencial de posicionar o Brasil como um líder global nesse novo mercado, contribuindo significativamente para a descarbonização da aviação. Eles possuem grandes players como membros, como a Petrobrás, Azul, Latam, Raízen e Anac.

Recentemente, a Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 528/2020, conhecido como “Combustível do Futuro”, que estabelece a criação do Programa Nacional de Combustível Sustentável de Aviação (ProBioQAV). Essa legislação busca incentivar a pesquisa, a produção e a comercialização de SAF, com metas de adoção gradual a partir de 2027, prevendo um aumento progressivo até atingir 10% de SAF nos voos domésticos até 2037.

Essa aprovação representa um avanço significativo para a aviação sustentável no Brasil, alinhando-se com as diretrizes internacionais de descarbonização e criando um ambiente favorável para investimentos no setor.

Assim, tanto a Conexão SAF quanto o novo projeto de lei são passos importantes rumo a uma aviação mais sustentável, capaz de atender às demandas ambientais e promover a inovação no mercado de combustíveis.

Petrobrás anuncia produção de SAF

A aprovação do projeto serviu como incentivo para que empresas do setor olhem para o potencial brasileiro.

A Petrobras anunciou planos para produzir o combustível sustentável de aviação em larga escala, reforçando seu compromisso com a transição energética. A estatal espera que suas primeiras plantas de SAF e diesel 100% renovável estejam operando até 2028, situadas na Refinaria Presidente Bernardes (RPBC) em São Paulo e no Polo Gaslub no Rio de Janeiro.

Essas plantas terão uma capacidade combinada de aproximadamente 34 mil barris por dia, permitindo que a Petrobras atenda até 30% da demanda nacional de querosene de aviação, estimada em cerca de 113 mil barris diários, sendo 19 mil pbd no Pólo Gaslub e 15 mil bpd na RPBC.

O foco da Petrobras em SAF se deve ao seu alto valor de mercado e ao potencial de redução de emissões de carbono no setor aéreo. Paralelamente, a empresa também avalia a produção de outros biocombustíveis, como o etanol e o biometano, com possibilidades de expansão para o mercado de e-metanol em parceria com a European Energy, visando fornecer combustível sustentável para o setor naval (Expert XP).

Brasil se movimenta para liderar combustível sustentável de aviação

A adoção do combustível sustentável de aviação representa um avanço essencial para a descarbonização do setor aéreo, que hoje é uma das fontes mais desafiadoras de emissão de carbono.

O Brasil dispõe de matérias-primas abundantes, como óleos vegetais (soja, dendê), bagaço de cana e resíduos agrícolas, além de um know-how avançado na produção de biocombustíveis como etanol e biodiesel. Esses fatores tornam o país um forte candidato para liderar a produção global de SAF, reduzindo emissões no setor aéreo e fomentando a bioeconomia sustentável.

O crescimento desse mercado, impulsionado por iniciativas como a Conexão SAF e o ProBioQAV, reflete o comprometimento do Brasil em adentrar nesse mercado e caminhar rumo a uma aviação mais sustentável, principalmente pela a vasta quantidade de matérias-primas renováveis que o país possui.

A implementação dessas soluções contribui não só para atender as metas climáticas nacionais e internacionais, mas também para fortalecer o Brasil na produção de biocombustíveis, que está com uma demanda crescente.

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